XVIII DOMINGO DO TEMPO COMUM (ANO A)

A PALAVRA

A liturgia do XVIII Domingo do Tempo Comum apresenta-nos o convite que Deus nos faz para nos sentarmos à mesa que Ele próprio preparou, e onde nos oferece gratuitamente o alimento que sacia a nossa fome de vida, de felicidade, de eternidade.
Na primeira leitura (Isaías 55,1-3), Deus convida o seu Povo a deixar a terra da escravidão e a dirigir-se ao encontro da terra da liberdade – a Jerusalém nova da justiça, do amor e da paz. Aí, Deus saciará definitivamente a fome do seu Povo e oferecer-lhe-á gratuitamente a vida em abundância, a felicidade sem fim.
O Evangelho (Mateus 14,13-21) apresenta-nos Jesus, o novo Moisés, cuja missão é realizar a libertação do seu Povo. No contexto de uma refeição, Jesus mostra aos seus discípulos que é preciso acolher o pão que Deus oferece e reparti-lo com todos os homens. É dessa forma que os membros da comunidade do Reino fugirão da escravidão do egoísmo e alcançarão a liberdade do amor.
A segunda leitura (Romanos 8,35.37-39) é um hino ao amor de Deus pelos homens. É esse amor – do qual nenhum poder hostil nos pode afastar – que explica porque é que Deus enviou ao mundo o seu próprio Filho, a fim de nos convidar para o banquete da vida eterna.
Fonte: Congregação dos Sacerdotes do Coração de Jesus

Leituras
Primeira Leitura Leitura do Livro do Profeta Isaías (55,1-3)
Salmo – Sl 144,8-9.15-16.17-18 (R.cf.16)
Segunda Leitura Carta de São Paulo aos Romanos (8,35.37-39)
Evangelho de Jesus Cristo segundo Mateus (14,13-21)
Fonte: Liturgia Diária
     

Reflexão do Evangelho
Dai-lhes vós mesmos de comer!
As “pessoas” o cercam, e até “assediam” um pouco Jesus – quando ele precisa de um lugar solitário, silencioso e isolado – estão tão interessadas em ouvi-lo, passar um tempo com ele, que não se importam em dar uma longa caminhada para encontrá-lo. Eles não se preocupam com o tempo, nem com o estômago, nem em se afastar de suas casas… Esquecem suas próprias necessidades e urgências… Colocam o Senhor em primeiro lugar. E eles serão agradavelmente surpreendidos porque Jesus…, por outro lado, cuida delas. Não é um “pregador” que os usa. Ele não se limita a encher a cabeça das pessoas com discursos e palavras… Em primeiro estão suas necessidades. E começa cuidando dos doentes.

Dito de outra maneira: A mensagem de Jesus, que fala de um Deus que se preocupa do homem, leva ao terreno prático: estas pessoas têm necessidades muito concretas agora mesmo. O Reino de Deus que anuncia Jesus tem que ver com tudo isto, com o que ocorre nesse momento, com o que precisa as pessoas. As coisas de Jesus e do Reino não são simples teorias, ou doutrina, nem estão afastadas de sua realidade concreta. Têm que ver com seu agora. E agora alguns estão doentes, e muitos têm fome.

  • Jesus está cansado. E podemos dar por suposto que também está triste e impactado porque acabam de matar João Batista. Pretendia estar a sós com seus amigos mais íntimos para compreender, interpretar e deixar-se questionar pelo que passou. Jesus se aprofunda nas coisas, nos acontecimentos. Não se limita ao comentário da notícia, a se queixar contra Herodes, a fazer um ato público de condenação: pergunta-se que significa aquilo, como lhe afeta, qual tem de ser sua reação… Não será difícil para ele perceber que a partir de agora ele será o centro das atenções e do assédio…

No entanto, seu cansaço, sua tristeza e sua necessidade de refletir e ficar um pouco sozinho… não a impedem de perceber a necessidade das pessoas, de sentir compaixão e fazer algo por elas. Não diz, faz. A palavra que Mateus escolheu não é “piedade” nem “tristeza”: é “COMPAIXÃO“, que significa sofrer com eles e buscar uma solução (ato): é a mesma palavra que ele havia usado anteriormente em uma das bem-aventuranças.

  • Os discípulos, que também estavam ouvindo Jesus, percebem que está ficando tarde e a fome do povo, pedem que Jesus termine a atividade. Pode-se ver que eles não descobrem muito sobre o que Jesus deseja transmitir com suas ações e palavras. Embora possamos apreciar o seguinte neles:
  • Primeiro: está o “DAR-SE CONTA“. Jesus viu o povo e percebeu que eles estavam sofrendo. Por sua parte, os discípulos perceberam que estava ficando tarde e eles tinham que comer. Perceber o que acontece com os outros, antes do que acontece comigo, é algo próprio de Jesus e dos seguidores de Jesus.
  • Segundo: APRESENTAR ESSAS NECESSIDADES DESCOBERTAS AO PRÓPRIO JESUS, e lhes ocorre fazer uma proposta. Não é muito bem-sucedida, embora pareça senso comum: existem muitos de nós, quase não temos nada, ou tenho o mesmo problema que eles, portanto: «Despede as multidões, para que possam ir aos povoados comprar comida!’».
  • Terceiro: Jesus convida-os a ENCONTRAR UMA SOLUÇÃO: Olha a ver o que tem, e com o que em vossa mão fazer. Isto é assunto teu e nosso e de todos. Não é só um problema das pessoas. E resulta que os discípulos conseguiram bem mais do que achavam. Aquela pobre gente precisada também contribuiria o seu, seus “POUCOS“… Entre uns e outros… Jesus foi a mediação necessária para ver as coisas desde outra perspectiva.
  • Terceiro: Jesus convida VOCÊ A SE ENCARREGAR DE ENCONTRAR uma solução: veja o que tem, o que está ao seu alcance para fazer. Este é problema, nosso e de todos. Não é apenas um problema do povo. E acontece que os discípulos receberam muito mais do que pensavam. Esses pobres necessitados também contribuiriam com seus próprios, seus “poucos”… Entre si… Jesus tem sido a mediação necessária para ver as coisas de outra perspectiva.
  • Os critérios dos discípulos não são os critérios de Jesus. Como os critérios da sociedade, de modo geral, e seu modo de resolver os problemas, não são exatamente os dos cristãos. Uns conjugam os verbos «DESPEDIR» (jogar, tirar da vista, reduzir pessoal, otimizar, devolver a seus países…) e «COMPRAR» (que pegue cada um com o que tem, que cada qual se busque a vida), «NÃO HÁ PARA TODOS» (isto é: não pode ser feito nada, não queremos repartir/compartilhar, primeiro os de casa/país)…

Mas Jesus nos fala continuamente de comunhão, de compartilhar, de fraternidade, de construir comunidade, de estar ao lado dos fracos, doentes e necessitados… Se nós os “expulsarmos”, se lhes dissermos que “comprem” eles mesmos (dinheiro a primeira coisa que faz é estabelecer diferenças, entre quem tem / não tem, tem mais / tem menos), se achamos que não é problema nosso… É QUE NÃO APRENDEMOS NADA SOBRE O QUE JESUS OFERECE E QUER DE NÓS. Por isso Jesus tenta ensinar aos discípulos e também, claro a todos nós:

  • Que coloquemos à disposição nossos “POUCOS” para compartilhar. Quando Jesus “LEVANTA OS OLHOS PARA O CÉU E PRONUNCIA A BÊNÇÃO” (como na Eucaristia), não está fazendo um gesto mágico: está reconhecendo que a comida é de Deus e, portanto, pertence a todos, e deve ser compartilhada e distribuída, para que todos fiquem satisfeitos e nada seja desperdiçado (“eles coletaram o que sobrou”). É por isso que cada Eucaristia deve aliviar nossos corações e aumentar a solidariedade… Ou será tudo menos a Ceia de Jesus. Ainda mais: essa multiplicação “pré-eucarística” só foi possível quando os discípulos começaram a se encarregar do povo. Jesus já havia feito isso antes. Porém, faltavam eles.
  • E por último: do mesmo modo que em nossas celebrações abençoamos a Deus pelos alimentos que depois compartilharemos na mesa do altar, não devemos perder o costume de abençoar a Deus antes de comer em nossas casas; ou de dar-lhe graça pelos dons que recebemos a cada dia. Não é que agradeçamos a Deus o ter comida, como se fôssemos melhores que quem não tem… senão de fazer-nos mais responsáveis por trabalhar para que a todos chegue o mesmo do que nós desfrutamos. Porque os dons de Deus são sempre para todos, para que a ninguém lhe falte o necessário.

Não é muito difícil partir desta reflexão para voltar nosso olhar ao que estão passando em nosso mundo e em nossas comunidades, por culpa desta pandemia: solidão, fome, desemprego, abusos, injustiça, exploração… Para perguntar-nos serenamente e seriamente o que nos pede o Senhor como cristãos, como comunidades, como Igreja. Não o fazer assim suporia desvirtuar o Evangelho e o fazer «incrível» para as pessoas de hoje. E seria falsear a Eucaristia.

Não é muito difícil começar a partir dessa reflexão olhar para o que está acontecendo em nosso mundo e em nossas comunidades, por causa dessa pandemia: solidão, fome, desemprego, abuso, injustiça, exploração … Perguntar-nos serenamente e seriamente o que o Senhor pede de nós como cristãos, como comunidades, como Igreja. Não fazer isso distorceria o Evangelho. E isso estaria falsificando a Eucaristia.  
Fonte: Ciudad Redonda (Missionários Claretianos)