V DOMINGO DA QUARESMA (ANO C)

A PALAVRA DESTAQUE

Nesta quinta etapa da Quaresma, a liturgia não nos fala apenas de abstinências ou gestos superficiais , ela faz um chamado urgente para rompermos as correntes que nos mantêm presos ao que nos diminui, ao que nos afasta da verdadeira vida. Deus não nos quer sufocados pelo peso do pecado, da culpa ou das falsas seguranças; Ele nos deseja LIVRES, plenos, caminhando com passos firmes em direção à alegria que só Ele pode dar.

A Primeira Leitura (Is 43,16-21) nos transporta ao drama dos exilados na Babilônia, um povo arrancado de sua terra, vivendo na sombra da saudade e da opressão. Mas Deus não os esquece. Ele promete uma nova libertação, um êxodo ainda mais glorioso. “Eu abrirei um caminho no deserto“, diz o Senhor. E não se trata apenas de uma volta geográfica à terra prometida, onde corre leite e mel, mas de um retorno ao coração de Deus.

E nós? Quais são as nossas Babilônias? O que nos mantém exilados de nós mesmos, de nossa dignidade, da paz que Cristo oferece? Pode ser o medo, o orgulho, vícios silenciosos, ou até mesmo aquela mágoa antiga que nos corrói por dentro. A Quaresma é o tempo propício para ouvirmos Deus dizer: Levanta-te, sacode o pó. Eu te conduzirei de volta para casa“.

No Evangelho (Jo 8,1-11), Jesus nos surpreende mais uma vez. Uma mulher, arrastada pelos fariseus como um troféu de acusação, é colocada diante d’Ele. A lei de Moisés exigia a condenação. Mas Cristo, curvando-se para escrever no chão — talvez os pecados daqueles que a julgavam —, ergue-se e declara: QUEM DENTRE VÓS ESTIVER SEM PECADO, ATIRE A PRIMEIRA PEDRA.

Um a um, eles se retiram. E então vem a palavra que deveria estar gravada a fogo em nossos corações: Eu também não te condeno. Vai e não peques mais.

Aqui está o cerne da misericórdia divina: Deus não minimiza o pecado, mas supera-o com um amor maior. Ele não nos humilha com nossa fraqueza; Ele nos ergue com sua graça. Quantas vezes, porém, insistimos em nos condenar, em acreditar que somos indignos? A Quaresma nos lembra que o perdão já foi dado. Resta agora caminhar em novidade de vida.

Na Segunda Leitura (Fl 3,8-14), São Paulo faz uma confissão impactante: tudo o que antes lhe parecia valioso — títulos, prestígio, certezas —, agora ele considera “LIXO” (ou, no original grego, skúbala, algo ainda mais forte). Por quê? Porque encontrou algo — ou melhor, Alguém — que vale infinitamente mais: Cristo.

E nós, o que ainda carregamos como peso morto? Talvez apegos a coisas que nos dão uma falsa segurança, vícios emocionais, ou até mesmo religiosidades vazias que nos mantêm distantes do essencial. Paulo nos desafia: Esqueço o que ficou para trás e lanço-me para o que está à frente(Fl 3,13). A vida cristã não é um museu de recordações, mas uma corrida — e Cristo é a meta.

A Quaresma não é um tempo de tristeza, mas de CORAGEM. Coragem para deixar para trás o que nos escraviza. Coragem para crer que, mesmo caídos, somos amados. Coragem para correr, como Paulo, em direção Àquele que nos chama pelo nome.

Deus não nos promete um caminho fácil, mas um caminho livre — e, ao final, nos espera a Páscoa, a vida que venceu a morte. QUAL CORRENTE VOCÊ PRECISA ROMPER HOJE?

Onde está o Espírito do Senhor, aí está a liberdade (2Cor 3,17). Que nesta Quaresma, Ele nos liberte verdadeiramente.

Fonte: Congregação dos Sacerdotes do Coração de Jesus

Leituras

Eis que farei coisas novas‘ – Deus não repete o passado, mas te surpreende hoje: rompe desertos, abre rios no impossível e renova tua esperança. Olha: Ele já está agindo!

16 Isto diz o Senhor,
que abriu uma passagem no mar
e um caminho entre águas impetuosas;
17 que pôs a perder carros e cavalos,
tropas e homens corajosos;
pois estão todos mortos e não ressuscitarão,
foram abafados como mecha de pano e apagaram-se:
18 “Não relembreis coisas passadas,
não olheis para fatos antigos.
19 Eis que eu farei coisas novas,
e que já estão surgindo: 
acaso não as reconheceis?
Pois abrirei uma estrada no deserto
e farei correr rios na terra seca.
20 Hão de glorificar-me os animais selvagens,
os dragões e os avestruzes,
porque fiz brotar água no deserto
e rios na terra seca
para dar de beber a meu povo, a meus escolhidos.
21 Este povo, eu o criei para mim
e ele cantará meus louvores”.
Palavra do Senhor.

Maravilhas fez conosco o Senhor’ – Mesmo quando as lágrimas regam a terra da alma, Ele transforma o pranto em colheita: enxuga teu rosto e te devolve a canção. Alegra-te! Deus já está virando teu cativeiro em dança.

R. Maravilhas fez conosco o Senhor,
exultemos de alegria!

1 Quando o Senhor reconduziu nossos cativos, *
parecíamos sonhar;
2a encheu-se de sorriso nossa boca, * 
 b nossos lábios, de canções. R.

  c Entre os gentios se dizia: “Maravilhas * 
 d fez com eles o Senhor!”
3 Sim, maravilhas fez conosco o Senhor, *
exultemos de alegria! R.

4 Mudai a nossa sorte, ó Senhor, *
como torrentes no deserto.
5 Os que lançam as sementes entre lágrimas, *
ceifarão com alegria. R.

6 Chorando de tristeza sairão, *
espalhando suas sementes;
cantando de alegria voltarão, *
carregando os seus feixes! R

Por Cristo, perdi tudo– Mas no vazio deixado por minhas certezas, encontrei a pérola que vale mais: morrer com Ele para renascer, e assim, na cruz, descobrir a verdadeira vida.

Irmãos:
8 Na verdade, considero tudo como perda
diante da vantagem suprema
que consiste em conhecer a Cristo Jesus, meu Senhor.
Por causa dele eu perdi tudo.
Considero tudo como lixo,
para ganhar Cristo e ser encontrado unido a ele,
9 não com minha justiça provindo da Lei,
mas com a justiça por meio da fé em Cristo,
a justiça que vem de Deus, na base da fé.
10 Esta consiste em conhecer a Cristo,
experimentar a força da sua ressurreição,
ficar em comunhão com os seus sofrimentos,
tornando-me semelhante a ele na sua morte,
11 para ver se alcanço a ressurreição dentre os mortos.
12 Não que já tenha recebido tudo isso,
ou que já seja perfeito.
Mas corro para alcançá-lo,
visto que já fui alcançado por Cristo Jesus.
13 Irmãos, eu não julgo já tê-lo alcançado.
Uma coisa, porém, eu faço:
esquecendo o que fica para trás,
eu me lanço para   que está na frente.
14 Corro direto para a meta,
rumo ao prêmio,
que, do alto, Deus me chama a receber
em Cristo Jesus.
Palavra do Senhor.

Quem não tiver pecado, atire a primeira pedra– O silêncio que se seguiu ecoa até hoje: nossas mãos, cheias de acusações, tremem diante da própria humanidade, enquanto Jesus escreve no chão uma nova chance.

Naquele tempo,
1 Jesus foi para o monte das Oliveiras.
2 De madrugada, voltou de novo ao Templo.
Todo o povo se reuniu e m volta dele.
Sentando-se, começou a ensiná-los.
3 Entretanto, os mestres da Lei e os fariseus
trouxeram uma mulher surpreendida em adultério.
Colocando-a no meio deles,
4 disseram a Jesus: 
“Mestre, esta mulher foi surpreendida em flagrante adultério.
5 Moisés na Lei mandou apedrejar tais mulheres.
Que dizes tu?”
6 Perguntavam isso para experimentar Jesus
e para terem motivo de o acusar.
Mas Jesus, inclinando-se,
começou a escrever com o dedo no chão.
7 Como persistissem em interrogá-lo,
Jesus ergueu-se e disse:
“Quem dentre vós não tiver pecado,
seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra”.
8 E tornando a inclinar-se,
continuou a escrever no chão.
9 E eles, ouvindo o que Jesus falou,
foram saindo um a um,
a começar pelos mais velhos;
e Jesus ficou sozinho,
com a mulher que estava lá, no meio do povo.
10 Então Jesus se levantou e disse:
“Mulher, onde estão eles?
Ninguém te condenou?”
11 Ela respondeu: “Ninguém, Senhor”.
Então Jesus lhe disse: 
“Eu também não te condeno.
Podes ir, e de agora em diante não peques mais”.
Palavra da Salvação.

Homilia

O PERDÃO QUE NÃO CONDENA... RECONSTRÓI.

Os letrados e os fariseus eram considerados – tanto pelo povo quanto por eles próprios – os responsáveis pela moralidade pública. Estudavam e conheciam de cor as regras, os critérios morais, os comportamentos inaceitáveis e tudo o que as autoridades religiosas determinavam. Falavam até mesmo em nome de Deus, pois julgavam conhecer perfeitamente Sua vontade, baseando-se nas regras oficiais. Seu objetivo era pôr fim à corrupção social e religiosa – e não era um objetivo ruim. Contudo, tornaram-se caçadores implacáveis, determinados a capturar, denunciar e condenar. Claro, asseguravam-se de que as sentenças fossem executadas por outros, mantendo assim as mãos “limpas” e a consciência tranquila, convencidos de que estavam reduzindo a imoralidade e o pecado.

Na cena atual, a mulher não desempenha um grande papel. O verdadeiro alvo é Jesus. A Lei de Moisés era clara: os adúlteros deveriam ser apedrejados. O homem e a mulher. Onde está ele?

Quando a lei ou norma é colocada ao lado de um pecado específico, a sentença adquire um rigor quase matemático. Mas tudo muda quando uma pessoa concreta é colocada ao lado da lei. Isso, no entanto, raramente acontece. Muitos preferem se livrar da pessoa a questionar a lei – ou ao menos refletir se sua aplicação é justa. Para eles, é impensável suspeitar que talvez a lei não deva ser aplicada da forma como a entendem. Estão prontos para “ATIRAR PEDRAS”.

Esses homens que cercam Jesus, “armados” com uma mulher que “apanharam” em pecado, sentem-se representantes da instituição judaica – e do próprio Deus. Eles tentam armar uma cilada para Ele, para ver se ousa dizer algo contra “o que está escrito”, contra as leis sagradas (isto é, as leis de Deus). Querem ver se Ele finalmente deixará de falar em “MISERICÓRDIA” e compreensão em nome de Deus. Nada de brandura com os fracos e pecadores! É preciso cumprir o que Moisés ordenou.

Tudo está pronto: o crime evidente, as testemunhas, as pedras nas mãos, e a Lei que ordena matar. Então, voltam-se para Jesus: “E TU, O QUE DIZES?”

Mas Jesus não responde. Ele FAZ. E a primeira coisa que faz é ficar em silêncio. Dá espaço ao silêncio. Espera. Ele concede aos acusadores a oportunidade de olhar para a situação de outra forma, com calma, com outros olhos. Dá-lhes tempo para refletir, para ver se alguém tem algo novo a dizer.

Mas é inútil. Para eles, tudo está muito claro. Eles têm certeza de que estão certos. Para eles, não há outro caminho. São a encarnação daquele velho ditado: Você acha que já sabe onde encontrar Deus, e por isso não O encontra”. Porque Deus é imprevisível, original, surpreendente. Se você acha que compreendeu Deus, é um sinal de que não compreendeu nada.

Essa mentalidade rígida, fundamentada em preceitos, regras, leis, definições, julgamentos e condenações, torna a mudança impossível. Eles não conhecem Deus. Moldam Deus à sua própria imagem – exatamente aquilo que é proibido no primeiro e mais importante mandamento: Não farás para ti imagem esculpida… (cf. Ex 20,2-5).

O Mestre pede a todos esses “juízes” que parem de acusar. Que deixem de olhar os outros de cima para baixo. Que se coloquem no mesmo nível de todos. Que experimentem, ao menos uma vez, a fraqueza alheia. Que se lembrem de suas próprias incoerências e pecados. Ele mesmo DESCEU ao nosso nível, entrou no nosso mundo, fez-se um de nós – e foi até a cruz. Talvez por isso, diante desses homens tão arrogantes, tão intransigentes, tão orgulhosos de sua “verdade”, Ele se abaixa. Ele desce ao chão, ao nível da mulher caída.

Coitado daquele que se esquece disso! Mais cedo ou mais tarde, acabará atirando pedras… Aquele que esquece os próprios pecados e a misericórdia que lhe foi concedida não resistirá à tentação de apedrejar qualquer pecador que se apresente diante dele.

O diálogo final entre Jesus e a mulher carrega uma ternura especial. Ela não precisa de acusações – precisa ser RECONSTRUÍDA. Ela está despedaçada. Ela sequer abriu a boca. E essa é a tarefa que o Senhor assume. Como ouvimos hoje nas palavras de Isaías:

Não relembreis coisas passadas, não olheis para fatos antigos (cf. Is 43,18).

O importante não é o passado, mas o que está por vir. Ela precisa de um caminho no seu deserto, de um rio em sua vida seca.

Como ela chegou a essa situação? O que aconteceu em seu casamento para que buscasse afeto em outro lugar? E, afinal, o que ganhamos ao apedrejá-la? O que deveria importar a eles – e a nós – não é sua condenação, mas sua restauração, sua redescoberta, sua renovação.

Você percebeu qual foi a “penitência” que Jesus impôs ao pecado evidente? Você percebeu como Ele repreendeu a mulher? Você percebeu quais condições Ele estabeleceu para perdoá-la?

Lembre-se da parábola do domingo passado. O pai repreendeu o filho pródigo? Disse-lhe: “Prove que está arrependido!”? Não! Ele o ABRAÇOU. Defendeu-o até mesmo do julgamento severo do irmão. Seu perdão foi incondicional, um presente – e é isso que significa “perdão”: um dom imerecido.

Quando Deus encontra o pecado, Ele não se preocupa com o passado. Ele só quer saber: o que podemos fazer para superá-lo? Não importa o que aconteceu. Não importa o que fizemos. O que Deus deseja é que algo novo brote dentro de nós.

Porque a pior situação não é o pecado em si, mas o desespero. Sentir-se irremediavelmente mal, derrotado, humilhado. Quem se sente assim não cresce espiritualmente, não se renova na fé, não se salva. E o ser humano, sem esperança, se perde.

Precisamos ouvir a voz de Deus quando caímos. Precisamos sentir que há um caminho aberto para nós. Precisamos ouvir – e ouvir muitas vezes – de Seus lábios:

NEM EU TE CONDENO. VAI, E NÃO PEQUES MAIS (cf. Jo 8,11).

E, ao escutar essas palavras, todas as pedras cairão de nossas mãos.

ORAÇÃO PARA O TEMPO DA QUARESMA

Deus de misericórdia e renovação, que no mar abriste caminhos e no deserto fizeste brotar rios (Is 43,16-19), chega aos nossos corações sedentos e às nossas realidades marcadas pela dor.

Assim como disseste a  Isaías: “Eis que faço coisas novas”, faz-nos profetas dessa novidade, capazes de enxergar, mesmo na aridez, o teu sopro de vida.

Como Pedro, que ouviu o convite: “Lançai as redes” (Lc 5,4), dá-nos a coragem de confiar além das nossas forças, e de acolher, com os braços abertos, a abundância da tua graça.

Que sejamos, neste mundo fragmentado, sinais do teu Reino: ponte onde há muros, luz onde há escuridão, e esperança onde o desânimo parece vencer.

Por Cristo, nosso Senhor, que nos chama a ser pescadores de homens.
Amém.

Texto: Quique Martínez de la Lama-Noriega, cmf
Fonte: Ciudad Redonda