
A Quaresma é um tempo sagrado de interiorização, arrependimento e renovação espiritual. No Ano Litúrgico C, as leituras bíblicas nos conduzem por um itinerário de fé que culmina no mistério pascal, onde a cruz se revela não como símbolo de derrota, mas como caminho de vitória. Ela é a expressão máxima do amor divino, o lugar onde a morte foi vencida e a vida eterna nos foi conquistada.
A Cruz como Renúncia e Libertação
No primeiro domingo da Quaresma (Lc 4,1-13), Jesus é levado ao deserto, onde enfrenta as tentações do demônio. Ele resiste, não pelo poder humano, mas pela força da Palavra de Deus. Esse episódio antecipa sua obediência até a cruz. A Quaresma nos chama a um “deserto espiritual“, onde devemos renunciar ao que nos afasta de Deus. A cruz, portanto, não é apenas sofrimento passivo, mas escolha ativa de abraçar a vontade do Pai, mesmo quando ela exige sacrifício.
A Quarta-Feira de Cinzas (Jl 2,12-18) reforça esse chamado à conversão: “Convertei-vos a mim de todo o coração“. A cruz nos convida a rasgar o coração, a deixar morrer o homem velho para que o novo possa ressurgir. Como diz São Paulo: “Fui crucificado com Cristo. Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim” (Gl 2,19-20).
A Cruz como Passagem para a Glória
No segundo domingo (Lc 9,28b-36), a Transfiguração revela a divindade de Jesus, mas também antecipa sua paixão. Moisés e Elias falam com Ele sobre seu “êxodo“ (Lc 9,31)—uma referência à sua morte e ressurreição. A glória do Tabor só faz sentido à luz do Calvário.
Isso nos ensina que nossas cruzes também têm um sentido transcendente. O sofrimento, unido ao de Cristo, não é vão. Como dizia Santa Teresa de Calcutá: “O sofrimento é um dom de Deus, se for compartilhado com Jesus“. A cruz não é o fim, mas a passagem necessária para a ressurreição.
A Cruz como Manifestação da Misericórdia
No quinto domingo (Jo 8,1-11), Jesus perdoa a mulher adúltera, mostrando que a justiça de Deus não condena, mas redime. A cruz é o ápice dessa misericórdia: nela, Jesus acolhe o ladrão arrependido (Lc 23,43), intercede por seus algozes (Lc 23,34) e nos oferece perdão.
A primeira carta de São Pedro (1Pd 2,24) diz: “Carregou nossos pecados em seu corpo sobre o madeiro, para que, mortos para o pecado, vivamos para a justiça“. A cruz, portanto, não é apenas um símbolo de dor, mas de reconciliação.
A Cruz como Sinal de Esperança
Na Sexta-Feira Santa, contemplamos o Cristo crucificado. Humanamente, parece o ápice do fracasso. Mas, na lógica de Deus, é o momento da maior vitória. Como proclama a liturgia: “Ó cruz bendita, que só tu foste digna de levar o Rei dos céus!“
A cruz nos ensina que o sofrimento, quando vivido em união com Cristo, se transforma em redenção. Santa Rosa de Lima dizia: “Fora da cruz não há escada para subir ao céu“.
Conclusão: A Cruz como Caminho de Santidade
A Quaresma nos prepara para entender que a vida cristã é um seguimento radical de Cristo, e isso implica carregar a cruz com amor. Não há santidade sem renúncia, não há Páscoa sem Sexta-Feira Santa.
Que neste tempo de graça, possamos abraçar nossas cruzes—sejam elas doenças, solidão, injustiças ou tentações—com a certeza de que, unidos a Jesus, elas se tornam caminho de ressurreição.
“Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome sua cruz cada dia e siga-me“ (Lc 9,23). Que a cruz não seja para nós motivo de medo, mas de esperança, pois ela é a ponte que nos leva à vida eterna.