A Caminhada Quaresmal que iniciamos na Quarta-feira de Cinzas atinge o seu ápice na SEMANA SANTA. Nela vamos reviver os eventos mais sagrados da nossa salvação: a Paixão, a Morte e a Ressurreição de Cristo. Nestes dias a Cruz está diante de nós, como símbolo eloquente do amor de Deus pela humanidade. Ao mesmo tempo, ressoa na Liturgia a invocação do Redentor moribundo:
“MEU DEUS, MEU DEUS, POR QUE ME ABANDONASTE?“ (Mt 27,46; Mc 15,34).
Sentimo-nos muitas vezes como “nosso” este brado de sofrimento nas várias e penosas situações de nossa existência, que podem causar tristeza, desânimo, incertezas. Nos momentos de solidão e desorientação, que não são raros em nossa vida, podendo brotar na nossa alma esse grito: O Senhor me abandonou!
Porém, a Paixão de Cristo e a sua glorificação no lenho da Cruz oferecem uma diferente chave de leitura destes eventos. No Calvário, no auge do sacrifício de Seu filho unigênito, o Pai não o abandona, mas, antes, leva à plena realização o desígnio de salvação em favor da humanidade inteira.
Na sua Paixão, Morte e Ressurreição, nos é revelada que a última palavra na existência humana não é a morte, mas a vitória de Deus sobre a morte. Por isso, fomos salvos da morte e um dia poderemos participar da ressurreição de Jesus Cristo e entrar na glória de Deus para sempre, se tivermos livremente aceito ser salvos por Cristo, trilhando seu caminho na fé.

DOMINGO DE RAMOS
“BENDITO O REI QUE VEM EM NOME DO SENHOR! PAZ NO CÉU E GLÓRIA NAS ALTURAS“. Lucas (19,37)
Jesus faz a sua entrada em Jerusalém, como Messias, montado num burrinho, segundo fora profetizado muitos séculos antes. O povo vem saudá-lo com ramos de oliveira que agitavam com grande alegria e gritavam:
HOSANA! BENDITO AQUELE QUE VEM EM NOME DO SENHOR!
Muitos estendiam suas vestes no chão para que o jumentinho as pisasse como se fossem um tapete. Aquela entrada triunfal de Jesus na cidade para celebrar a Páscoa foi bastante efêmera para muitos. Os ramos verdes murcharam rapidamente.
O “SALVE-NOS” entusiástico transformou-se num grito furioso: CRUCIFICA-O!
Por que foi tão brusca a mudança? Por que tanta inconsistência?
Este episódio nos remete à nossa própria vida. Faz-nos refletir sobre a nossa coerência e perseverança na fé. Pede-nos o aprofundamento da nossa fidelidade, para que nossos propósitos não sejam luz que brilha momentaneamente e logo se apaga.
Dentro do nosso coração, há profundos contrastes: somos capazes do melhor e do pior. Se quisermos ter em nós a vida divina, para triunfar com Cristo temos de ser constantes e matar pela penitência o que nos afasta de Deus e nos impede de acompanhar o Senhor até a Cruz.

QUINTA-FEIRA SANTA
“NISTO CONHECERÃO TODOS QUE SOIS MEUS DISCÍPULOS, SE VOS AMARDES UNS AOS OUTRO” João (13,35)
A Quinta-feira Santa recorda-nos a Última Ceia do Senhor com os apóstolos, todos os momentos desta última refeição refletem a majestade de Jesus que sabe que morrerá no dia seguinte, e o seu grande amor e ternura pelos homens.
Ela tem início com o pôr do sol. Jesus recita os salmos com voz firme e num tom particularmente expressivo. São João diz-nos que Jesus desejava ardentemente comer essa Páscoa com os seus discípulos.
Nessas horas aconteceram coisas singulares: a rivalidade entre os apóstolos, que discutem sobre qual deles seria o maior; o exemplo surpreendente de humildade e de serviço que Jesus dá quando se ajoelha e executa uma tarefa que deixou os servos mais ínfimos: começou a lavar-lhes os pés… o amor e a ternura que manifesta pelos seus discípulos: FILHINHOS MEUS… chega a dizer-lhes.
O próprio Senhor quis dar àquela reunião tal plenitude de significado, tal riqueza de recordações, tal comoção de palavras e sentimentos, tal novidade de atos e preceitos, que nunca acabaremos de meditá-los e explorá-los. É uma ceia testamentária; é uma ceia afetuosa e imensamente triste, e ao mesmo tempo misteriosamente reveladora de promessas divinas, de perspectivas supremas.
O que o Cristo fez por nós pode resumir-se nestas breves palavras de São João: AMOU-NOS ATÉ O FIM.
Este é um dia especialmente apropriado para meditarmos nesse amor de Jesus por cada um de nós e no modo como lhe estamos correspondendo. Provavelmente no fim da ceia, após permanecer em silêncio por uns instantes, Jesus institui a Eucaristia. O Senhor antecipa de forma sacramental o sacrifício que consumará no dia seguinte no Calvário. Até aquele momento, a Aliança de Deus com o seu povo estava representada pelo cordeiro pascal sacrificado no altar dos holocaustos, pelo banquete de toda a família na ceia pascal. Agora o Cordeiro imolado é o próprio Cristo:
ESTA É A NOVA ALIANÇA NO MEU SANGUE…
O Corpo de Cristo é o novo banquete que congrega todos os irmãos: TOMAI E COMEI…
Com a imolação e oferenda de Si próprio – Corpo e Sangue – ao Pai, como Cordeiro sacrificado, o Senhor inaugura a nova e definitiva Aliança entre Deus e os homens, e com ela redime todos nós da escravidão do pecado e da morte eterna.
Jesus fala aos apóstolos da sua iminente partida, e é então que anuncia o mandamento novo:
“ESTE É O MEU MANDAMENTO: QUE VOS AMEIS UNS AOS OUTROS COMO EU VOS AMEI“ João (15,12).
Desde então, sabemos que a caridade é o caminho para seguir a Deus mais de perto e para encontrá-lO com maior prontidão. O modo como tratarmos e servirmos os que nos rodeiam será o sinal pelo qual nos hão de reconhecer como discípulos do Senhor.
Este é um mandamento novo porque são novos os seus motivos: o próximo é um só em Cristo, e por isso é objeto de um especial amor do Pai. Também porque estabelece relações novas entre os homens; porque o modo de cumpri-lo será sempre novo: como eu vos amei; porque se dirige a um povo novo e requer corações novos; porque estabelece os alicerces de uma ordem diferente e desconhecida até então. No final desta meditação devemos nos perguntar:
Nos lugares onde se desenvolve a maior parte da nossa vida, as pessoas nos reconhecem como discípulos de cristo?

SEXTA-FEIRA SANTA
“PAI, EM TUAS MÃOS ENTREGO O MEU ESPÍRITO“ Lucas ( 23,46)
Toda a vida de Jesus está orientada para este momento supremo. Com muito custo, consegue chegar ofegante e exausto ao topo daquela pequena colina chamada “lugar do calvário“, GÓLGOTA.
A seguir, estendem-no no chão e começam a pregá-lo no madeiro. Introduzem primeiro os ferros nas mãos, desfibrando-lhe nervos e carne. Depois, é içado até ficar erguido sobre a trave vertical fixada no chão. Por fim, pregam-lhe os pés. Maria, sua mãe contempla a cena.
O Senhor está firmemente pregado na Cruz. Tinha esperado por ela durante muitos anos, e naquele dia cumpria-se o seu desejo de redimir os homens.
Aquilo que até Ele tinha sido um instrumento infame e desonroso, convertia-se em árvore de vida e escada de glória. Invadia-O uma profunda alegria ao estender os braços sobre a cruz, para que todos soubessem que era assim que teria sempre os braços para os pecadores que d’Ele se aproximassem: ABERTOS.
A crucifixão era a execução mais cruel e afrontosa que a Antiguidade conhecia. Um cidadão romano não podia ser crucificado. A morte sobrevinha depois de uma longa agonia. Às vezes, os verdugos aceleravam o fim do crucificado quebrando-lhe as pernas. Ainda hoje são muitos os que se negam a aceitar um Deus feito homem que morre num madeiro para salvar-nos: o drama da cruz continua a ser escândalo para os judeus e loucura para os gentios.
Mas, afinal, por que tanto padecimento? Tudo o que Cristo padeceu é o preço do nosso resgate. Não se contentou em sofrer alguma coisa: quis esgotar o cálice, para que compreendêssemos a grandeza do seu amor e a baixeza do pecado; para que fôssemos generosos na entrega, na mortificação, no espírito de serviço.
Ele quis sofrer tudo isso por você e por mim. E nós, não devemos de saber corresponder. Só o nosso “não querer” pode tornar vã a Paixão de Cristo.

SÁBADO SANTO: A VIGÍLIA PASCAL
“EU SOU A LUZ DO MUNDO“ João (8,12)
O corpo de Jesus jaz no sepulcro. O mundo foi envolvido pelas trevas. Maria é a única luz acesa sobre a terra. Ela protegeu com a sua fé, coma sua esperança e o seu amor a esta Igreja nascente, débil e assustada. Assim nasceu a Igreja: ao abrigo da nossa Mãe. Já desde o princípio Maria foi a Consoladora dos aflitos, dos que estavam em dificuldades.
Este sábado, em que todos cumpriam o descanso festivo segundo a lei, não foi um dia triste para Nossa Senhora: seu filho tinha deixado de sofrer. Ela aguardava serenamente o momento da Ressurreição; por isso não acompanhou as santas mulheres que foram embalsamar o corpo morto de Jesus e por isso tranquilizou os apóstolos.
O centro da Semana Santa é a Vigília Pascal, sendo a sua liturgia densa. Toda a quaresma e os dias santos preparam-nos para o momento culminante: O DIA DA RESSURREIÇÃO.
A celebração compreende quatro partes: a Liturgia da Luz, a Liturgia da Palavra, a Liturgia do Batismo e a Liturgia Eucarística.
Na Liturgia da Luz, acontece a bênção do fogo novo e do Círio Pascal. O fogo simboliza o nosso coração ardendo no amor de Deus e dos irmãos. O Círio representa o Cristo ressuscitado, vencedor das trevas da morte. Nessa Vigília todos acendem suas velas na luz do Círio, expressando sua participação na vida do Ressuscitado que venceu a morte e vai dar continuidade à presença viva da luz de Cristo no mundo.
Recordamos também nesse dia o nosso batismo. O sacramento do Batismo insere o cristão no mistério da morte e ressurreição de Cristo. Diz o apóstolo Paulo:
“No batismo fomos sepultados com Cristo na morte, para que como Ele foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também nós vivamos vida nova“. Romanos (6,4).
Sepultados na água batismal, o pecado morre em nós e saímos da água com o germe da vida nova de Cristo ressuscitado. Toda vida terrena do cristão deve corresponder a isso. Será uma luta contra todo mal, pecado, injustiça, violência, humilhação, pobreza e discriminação; em favor da vida, da santidade, da dignidade humana, da justiça, da solidariedade, do perdão, do amor e da paz. Se assim for, a morte do cristão será passagem para a futura ressurreição feliz, no fim dos tempos.
Fonte: REDAÇÃO
Imagens: CEREZO BARREDO