IV DOMINGO DA QUARESMA (ANO C)

A PALAVRA

A Quaresma é mais que abstinência – é uma jornada em direção à vida nova. Na quarta etapa desse caminho, a liturgia nos mostra como alcançá-la: deixando para trás as cadeias que nos oprimem e abraçando a liberdade divina.

A Primeira Leitura (Js 5,9a.10-12) recorda Israel entrando em Canaã, deixando o Egito e o deserto para trás. Essa passagem reflete nossa vida: quantos ainda carregam seus “Egitos” – vícios, mágoas, medos – sem crer na libertação? Deus não nos tirou da escravidão para nos perder no deserto. Há uma terra prometida para quem ousa caminhar.

No Evangelho (Lc 15,1-3.11-32), Jesus revela o Pai que espera de braços abertos o filho pródigo. Não há sermões, só misericórdia. Muitos hesitam em voltar, presos pela vergonha, mas Deus já corre ao nosso encontro antes mesmo do arrependimento. A conversão não é sobre merecimento, mas sobre rendição.

Paulo, na Segunda Leitura (2Cor 5,17-21), fala de reconciliação: Cristo derrubou o muro entre Deus e a humanidade. Quem se une a Ele não é apenas perdoado, mas transformado. Vida nova não é reforma superficial – é RENASCIMENTO.

A Quaresma é um chamado urgente: saia do seu Egito, deixe o deserto, corra para os braços do Pai. A vida plena começa hoje. VOCÊ ESTÁ PRONTO PARA DAR O PRIMEIRO PASSO?

Fonte: Congregação dos Sacerdotes do Coração de Jesus

Leituras

Hoje, tirei de vós o opróbrio do Egito.” No esplendor da promessa cumprida, o povo celebra a Páscoa, saboreando os frutos da terra, sinal vivo da fidelidade divina que transforma escravidão em liberdade e abundância.

Naqueles dias,
9a o Senhor disse a Josué:
“Hoje tirei de cima de vós o opróbrio do Egito”.
10 Os israelitas ficaram acampados em Guilgal e
celebraram a Páscoa no dia catorze do mês,
à tarde, na planície de Jericó.
11 No dia seguinte à Páscoa
comeram dos produtos da terra,
pães sem fermento
grãos tostados nesse mesmo dia.
12 O maná cessou de cair no dia seguinte,
quando comeram dos produtos da terra.
Os israelitas não mais tiveram o maná.
Naquele ano comeram dos frutos da terra de Canaã.
Palavra do Senhor.

Provai e vede quão suave é o Senhor!” Quem nele confia jamais será decepcionado, pois sua bondade sacia os famintos, ilumina os aflitos e renova os corações, transformando dor em esperança e trevas em luz.

R. Provai e vede quão suave é o Senhor!

2 Bendirei o Senhor Deus em todo o tempo, *
seu louvor estará sempre em minha boca.
3 Minha alma se gloria no Senhor; *
que ouçam os humildes e se alegrem! R.


4 Comigo engrandecei ao Senhor Deus, *
exaltemos todos juntos o seu nome!
5 Todas as vezes que o busquei, ele me ouviu, *
e de todos os temores me livrou. R.

6 Contemplai a sua face e alegrai-vos, *
e vosso rosto não se cubra de vergonha!
7 Este infeliz gritou a Deus, e foi ouvido, *
e o Senhor o libertou de toda angústia. R.

Por Cristo, Deus nos reconciliou consigo mesmo.” Nele, o abismo do pecado foi vencido pelo amor, fazendo-nos novas criaturas. Agora, somos chamados a refletir essa graça, vivendo como embaixadores da misericórdia e da reconciliação divina.

Irmãos:
17 Se alguém está em Cristo,
é uma criatura nova.
O mundo velho desapareceu.
Tudo agora é novo.
18 E tudo vem de Deus,
que, por Cristo, nos reconciliou consigo
e nos confiou o ministério da reconciliação.
19 Com efeito, em Cristo, Deus reconciliou o mundo consigo,
não imputando aos homens as suas faltas
e colocando em nós a palavra da reconciliação.
20 Somos, pois, embaixadores de Cristo,
e é Deus mesmo que exorta através de nós.
Em nome de Cristo, nós vos suplicamos:
deixai-vos reconciliar com Deus.
21 Aquele que não cometeu nenhum pecado,
Deus o fez pecado por nós,
para que nele nós nos tornemos justiça de Deus.
Palavra do Senhor.

Este teu irmão estava morto e tornou a viver.” No abraço do Pai, a misericórdia restaura o que estava perdido. Que nossos corações aprendam a perdoar, celebrando cada retorno como triunfo do amor sobre a distância e o erro.

Naquele tempo:
1Os publicanos e pecadores
aproximavam-se de Jesus para o escutar.
2Os fariseus, porém, e os
mestres da Lei criticavam Jesus.
‘Este homem acolhe os pecadores
e faz refeição com eles.’
3Então Jesus contou-lhes esta parábola:
11‘Um homem tinha dois filhos.
12O filho mais novo disse ao pai:
‘Pai, dá-me a parte da herança que me cabe’.
E o pai dividiu os bens entre eles.
13Poucos dias depois, o filho mais novo
juntou o que era seu
e partiu para um lugar distante.
E ali esbanjou tudo numa vida desenfreada.
14Quando tinha gasto tudo o que possuía,
houve uma grande fome naquela região,
e ele começou a passar necessidade.
15Então foi pedir trabalho a um homem do lugar,
que o mandou para seu campo cuidar dos porcos.
16O rapaz queria matar a fome
com a comida que os porcos comiam,
mas nem isto lhe davam.
17Então caiu em si e disse:
‘Quantos empregados do meu pai têm pão com fartura,
e eu aqui, morrendo de fome.
18Vou-me embora, vou voltar para meu pai e dizer-lhe:
`Pai, pequei contra Deus e contra ti;
19já não mereço ser chamado teu filho.
Trata-me como a um dos teus empregados’.
20Então ele partiu e voltou para seu pai.
Quando ainda estava longe, seu pai o avistou
e sentiu compaixão.
Correu-lhe ao encontro, abraçou-o,
e cobriu-o de beijos.
21O filho, então, lhe disse:
‘Pai, pequei contra Deus e contra ti.
Já não mereço ser chamado teu filho’.
22Mas o pai disse aos empregados:
`Trazei depressa a melhor túnica para vestir meu filho.
E colocai um anel no seu dedo e sandálias nos pés.
23Trazei um novilho gordo e matai-o.
Vamos fazer um banquete.
24Porque este meu filho estava morto e tornou a viver;
estava perdido e foi encontrado’.
E começaram a festa.
25O filho mais velho estava no campo.
Ao voltar, já perto de casa,
ouviu música e barulho de dança.
26Então chamou um dos criados
e perguntou o que estava acontecendo.
27O criado respondeu:
`É teu irmão que voltou.
Teu pai matou o novilho gordo,
porque o recuperou com saúde’.
28Mas ele ficou com raiva e não queria entrar.
O pai, saindo, insistia com ele.
29Ele, porém, respondeu ao pai:
`Eu trabalho para ti há tantos anos,
jamais desobedeci a qualquer ordem tua.
E tu nunca me deste um cabrito
para eu festejar com meus amigos.
30Quando chegou esse teu filho,
que esbanjou teus bens com prostitutas,
matas para ele o novilho cevado’.
31Então o pai lhe disse:
`Filho, tu estás sempre comigo,
e tudo o que é meu é teu.
32Mas era preciso festejar e alegrar-nos,
porque este teu irmão estava morto e tornou a viver;
estava perdido, e foi encontrado’.
Palavra da Salvação.

Homilia

DEUS NOS SURPREENDE: UM NOVO COMEÇO

Talvez hoje, mais do que nunca, sintamos o abismo entre as gerações: diálogos que se perderam, crises de esperança; filhos pródigos que deixam seu lar; outros… quem sabe retornam. Há situações em que a fragilidade – como a do Papa Francisco – se transforma em testemunho. As leituras deste domingo nos inspiram.

Dividirei esta homilia em três atos:

  • Um novo começo
  • Reconciliação: não condenar, mas abraçar.
  • A misericórdia que desarma

UM NOVO COMEÇO

A primeira leitura – tomada do Livro de Josué (5,9a.10-12) – nos apresenta um momento crucial na história da salvação: o povo de Israel, após quarenta anos de peregrinação no deserto, celebra sua primeira Páscoa na Terra Prometida. O maná que os sustentou no êxodo cessa, e agora se alimentam dos frutos da terra de Canaã. É mais que uma mudança geográfica – é uma transformação existencial, um verdadeiro ‘novo êxodo‘ espiritual.

Este relato ressoa profundamente em nosso tempo. Assim como Israel, a Igreja hoje vive sua travessia: um tempo sinodal que exige de nós a coragem de deixar velhas estruturas, mentalidades clericalistas e divisões estéreis. O deserto que enfrentamos tem nomes modernos: secularismo, indiferença religiosa, crise de sentido. Mas a promessa permanece: Deus nos conduz a uma terra nova, onde a fé pode florescer de formas inesperadas.

A recente enfermidade e recuperação do Papa Francisco tornam-se eloquente parábola do nosso tempo. Sua fragilidade pública não é sinal de fracasso, mas sacramento de uma verdade evangélica: ‘Quando sou fraco, então é que sou forte‘ (2 Coríntios 12,10). Num mundo obcecado por eficiência e poder, a Igreja é chamada a testemunhar que a verdadeira força nasce da confiança radical em Deus, não de estratégias humanas.

Neste IV Domingo da Quaresma, somos confrontados com perguntas cruciais: Que ‘manás’ precisamos deixar para trás? A que seguranças artificiais ainda nos apegamos? Como comunidade eclesial, temos a coragem de abraçar a vulnerabilidade fértil que permite a Deus agir em nós?

Josué nos ensina que a passagem para a Terra Prometida exige memória grata do passado, mas também audácia para pisar em terreno novo. Que nesta Quaresma, guiados pelo mesmo Deus que conduziu Israel, possamos dar esse passo de fé – não como indivíduos isolados, mas como povo da Nova Aliança, peregrinos rumo à Páscoa definitiva.

RECONCILIAÇÃO: NÃO CONDENAR, MAS ABRAÇAR.

A leitura da Segunda Carta de São Paulo aos Coríntios ressoa como um chamado urgente para nosso tempo: ‘Em Cristo, somos uma nova criação; as coisas antigas já passaram, eis que se fizeram novas!‘ (2 Cor 5,17). Mais que um conceito teológico, esta é uma realidade existencial que deve marcar cada cristão. Nossa vocação, como lembra Paulo, é ser ‘ministros da reconciliação’ (2 Cor 5,18) – embaixadores do perdão divino em um mundo fracturado.

O cenário contemporâneo clama por esta mensagem com dor evidente: guerras que dilaceram nações, desigualdades que humilham irmãos, polarizações que transformam diálogos em monólogos de surdos. Diante deste panorama, a Igreja não pode ser fortaleza de julgamento, mas deve encarnar a ponte misericordiosa que une o que o pecado separou.

A reconciliação autêntica, como revela a parábola do filho pródigo (Lc 15), exige dupla coragem: a humildade do filho que reconhece seu erro (‘Pai, pequei contra o céu e contra ti‘) e a generosidade radical do Pai que corre ao encontro, antecipando-se até às palavras de arrependimento. Numa época onde redes sociais incentivam a cultura do cancelamento e as comunidades eclesiais não estão imunes a divisões, São Paulo nos desafia a redescobrir nossa identidade mais profunda: não somos juízes armados de condenações, mas servos ungidos para curar.

Este IV Domingo da Quaresma nos coloca diante de perguntas incômodas: Que ‘coisas antigas‘ ainda precisam passar em minha vida para que a novidade de Cristo resplandeça? Como estou exercendo, na prática, meu ministério de reconciliação – em minha família, comunidade, ambiente de trabalho? A Quaresma não é tempo de autoflagelos vazios, mas de conversão autêntica que nos torna, como dizia São Francisco de Assis, ‘instrumentos da paz‘.

A verdadeira reconciliação começa quando deixamos de projetar nos outros a exigência de mudança que primeiro deve acontecer em nós. Tal como Cristo na cruz – o grande reconciliador que uniu céu e terra – somos chamados a estender os braços num abraço que desarme corações. Eis o milagre quaresmal: da morte do egoísmo nasce a ressurreição da comunhão.

A MISERICÓRDIA QUE DESARMA

Se há uma passagem que poderia ser chamada de ‘o coração que pulsa no centro do Evangelho‘, certamente seria a parábola do filho pródigo (Lc 15,1-3.11-32). Esta narrativa não é simplesmente uma história, mas uma revelação explosiva da natureza de Deus: um Pai que rompe todos os protocolos – correndo ao encontro (quando a dignidade exigiria que esperasse), restituindo a filiação (quando a justiça permitiria apenas aceitá-lo como servo), e promovendo festa (quando a prudência recomendaria um período de prova). Três gestos divinos que desafiam nossa lógica humana: corre, restaura, celebra!

Jesus conta esta parábola – e não podemos perder este contexto vital! – justamente quando os fariseus e mestres da lei murmuravam: ‘Este homem acolhe pecadores e come com eles‘ (Lc 15,2). Hoje, assistimos a um eco perturbador dessas críticas: setores da Igreja que acusam o Papa Francisco de ‘laxismo’ por insistir que a misericordia não é exceção, mas a própria regra do Evangelho. A parábola, porém, nos adverte: a Igreja não pode permitir que se transforme no ‘filho mais velho’ – aquele que, embora formalmente obediente, nutre um coração cheio de ressentimento contra a graça que ousa alcançar os ‘indignos’.

O Pontífice, em sua fragilidade física visível, torna-se um ícone vivo desta teologia: sua visita a prisões, o lava-pés a refugiados muçulmanos, o abraço a pessoas marginalizadas – tudo isso encarna o Deus que ‘SAI‘ ao encontro. Sua enfermidade é mais que uma condição médica; é um sinal profético: a Igreja precisa curar-se da obsessão com sua própria imagem institucional para abraçar plenamente sua vocação de ‘hospital de campanha‘ – lugar onde as feridas são tratadas antes que os documentos sejam exigidos.

Esta narrativa nos confronta com perguntas cruciais: Nossas comunidades são espaços onde os ‘pródigos‘ de hoje – divorciados recasados, LGBTQ+, viciados em recuperação – encontram o abraço do Pai ou a frieza do irmão mais velho? Nossa prática pastoral é marcada pela ansiosa expectativa do Pai que avista o filho ‘ainda longe‘ (Lc 15,20), ou pela calculada prudência dos fariseus?

A Quaresma nos chama a uma conversão radical: deixar de ser guardiões de um clube exclusivo para nos tornarmos arautos do Banquete inesperado. Pois, no fim, todos somos o filho pródigo – alguns ainda vagando longe de casa, outros já acolhidos, mas todos igualmente necessitados daquela misericórdia que nos precede, supera e transforma.

CONCLUSÃO

A mensagem deste domingo precisa nos questionar. Estamos em ‘terra nova’ — como Israel na Terra Prometida: é hora de colher o que foi plantado com paciência ao longo desses anos. Como Paulo, somos embaixadores de um Reino que não se constrói com poder, mas com serviço. Como o pai da parábola, somos chamados a ser sinais de um amor que não faz cálculos. A convalescença do Papa Francisco é um convite à confiança: nem as estruturas nem os líderes salvam, MAS CRISTO, que renova todas as coisas. Que esta etapa inspire a Igreja a caminhar com humildade, ousadia e compaixão, certos de que, mesmo na fraqueza, Deus faz ‘NOVAS TODAS AS COISAS’.

ORAÇÃO

Pai de infinita bondade,
como o filho pródigo, eu volto a Vós,
arrependido e frágil.
Acolhei-me em Vosso abraço,
lavai-me com Vosso perdão
e fazei-me instrumento da Vossa misericórdia.
Que esta Quaresma me transforme,
para que, renovado,
eu leve a todos o amor
que nunca cansa de acolher.
Amém.

Que esta oração nos acompanhe ao longo da Quaresma, iluminando nossos passos e fortalecendo nossa fé.

Texto: JOSÉ CRISTO REY GARCÍA PAREDES
Fonte: ECOLOGÍA DEL ESPÍRITU
Este artigo foi produzido com a assistência de ferramentas de inteligência artificial.