III DOMINGO DA QUARESMA (ANO C)

A PALAVRA

Nesta terceira etapa da caminhada para a Páscoa, somos convidados a repensar nossa existência, com foco na conversão e na libertação. A liturgia nos apresenta um Deus libertador, que nos chama a romper as correntes do egoísmo e do pecado, para vivermos a vida em plenitude, refletindo a própria vida divina em nós. O Evangelho (Lc 13,1-9) é claro: Jesus nos convida a uma transformação radical, um recentramento da vida em Deus e em seus valores. Sem isso, nossa existência será dominada pelo egoísmo, que promete liberdade, mas só conduz à morte. Quantas vezes buscamos controlar tudo ao nosso redor, apenas para nos sentirmos mais distantes de nós mesmos e dos outros? A mensagem é clara: só há vida plena quando Deus ocupa o centro.

A Segunda Leitura (1Cor 10,1-6.10-12) nos alerta sobre o perigo de reduzir a fé a ritos externos, vazios de significado. Não basta cumprir práticas religiosas; o que importa é a adesão sincera a Deus, vivendo em comunhão íntima com Ele. A autenticidade é essencial: não se trata de viver para Deus, mas com Deus, permitindo que Ele transforme cada aspecto da nossa existência.

Já a Primeira Leitura (Ex 3,1-8a.13-15) nos mostra um Deus que não tolera injustiças. Ele está presente na luta daqueles que buscam libertação, defendendo os oprimidos e exigindo que combatamos tudo o que nos escraviza. Este Deus não nos chama apenas a sermos libertados, mas a nos tornarmos agentes de libertação, lutando contra o medo, o orgulho e as estruturas que oprimem os mais vulneráveis.

A conversão, portanto, não é um evento único, mas um processo contínuo. É como descer às profundezas de um poço escuro para emergir à luz da liberdade. E essa liberdade não é só individual; é comunitária. Ao nos convertermos, nos tornamos canais da graça de Deus, testemunhas de sua justiça e misericórdia.

Neste tempo de preparação para a Páscoa, somos desafiados a refletir: O que ainda me escraviza? O que preciso abandonar para que Deus ocupe o centro da minha vida? E como posso ser um instrumento de libertação para os outros? A Páscoa é um convite a morrermos para o que nos aprisiona e ressuscitarmos para uma vida nova, plena e livre.

Fonte: Congregação dos Sacerdotes do Coração de Jesus

Leituras

“Eu Sou” enviou-me a vós. Como outrora chamou Moisés do meio da sarça ardente, hoje o Deus vivo nos envia, iluminando caminhos, renovando esperanças e transformando nossa existência com Sua presença eterna e libertadora.

Naqueles dias,
1 Moisés apascentava o rebanho de Jetro, seu sogro,
sacerdote de Madiã.
Levou um dia, o rebanho deserto adentro
e chegou ao monte de Deus, o Horeb.
2 Apareceu-lhe o anjo do Senhor numa chama de fogo,
do meio de uma sarça.
Moisés notou que a sarça estava em chamas,
mas não se consumia, e disse consigo:
3 “Vou aproximar-me desta visão extraordinária,
para ver porque a sarça não se consome”.
4 O Senhor viu que Moisés se aproximava para observar
e chamou-o do meio da sarça, dizendo: “Moisés! Moisés!”
Ele respondeu: “Aqui estou”.
5 E Deus disse: “Não te aproximes! Tira as sandálias dos pés,
porque o lugar onde estás é uma terra santa”.
6 E acrescentou:
“Eu sou o Deus de teus pais, o Deus de Abraão,
o Deus de Isaac e o Deus de Jacó”.
Moisés cobriu o rosto, pois temia olhar para Deus.
7 E o Senhor lhe disse: 
“Eu vi a aflição do meu povo que está no Egito 
e ouvi o seu clamor por causa da dureza de seus opressores.
Sim, conheço os seus sofrimentos.
8a Desci para libertá-los das mãos dos egípcios,
e fazê-los sair daquele país
para uma terra boa e espaçosa,
uma terra onde corre leite e mel”.
13 Moisés disse a Deus:
“Sim, eu irei aos filhos de Israel e lhes direi:
‘O Deus de vossos pais enviou-me a vós'”.
Mas, se eles perguntarem:
‘Qual é o seu nome?’ o que lhes devo responder?”
14 Deus disse a Moisés:
“Eu Sou aquele que sou”. E acrescentou:
“Assim responderás aos filhos de Israel:
‘Eu sou’ enviou-me a vós”.
15 E Deus disse ainda a Moisés:
“Assim dirás aos filhos de Israel:
‘O Senhor, o Deus de vossos pais,
o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó,
enviou-me a vós’.
Este é o meu nome para sempre,
e assim serei lembrado de geração em geração”.
Palavra do Senhor.

O Senhor é bondoso e compassivo.” Em cada amanhecer, Seu amor renova-se como brisa suave; Ele cura feridas, sustenta os aflitos e abraça os que d’Ele se aproximam, revelando a misericórdia que jamais se esgota.

R. O Senhor é bondoso e compassivo.

1 Bendize, ó minha alma, ao Senhor,*
e todo o meu ser, seu santo nome!
2 Bendize, ó minha alma, ao Senhor,*
não te esqueças de nenhum de seus favores! R.
 

3 Pois ele te perdoa toda culpa,*
e cura toda a tua enfermidade;
4 a sepultura ele salva a tua vida*
e te cerca de carinho e compaixão. R.

8 O Senhor é indulgente, é favorável,*
é paciente, é bondoso e compassivo.
11 Quanto os céus por sobre a terra se elevam*
tanto é grande o seu amor aos que o temem. R.

A vida do povo com Moisés no deserto foi escrita para ser exemplo para nós.” Como Israel peregrinou entre provações, também caminhamos, aprendendo que a fidelidade a Deus nos sustenta e Seu amor nos conduz à verdadeira liberdade.

1 Irmãos, não quero que ignoreis o seguinte:
Os nossos pais estiveram todos debaixo da nuvem
e todos passaram pelo mar;
2 todos foram batizados em Moisés,
sob a nuvem e pelo mar;
3 e todos comeram do mesmo alimento espiritual,
4 e todos beberam da mesma bebida espiritual;
de fato, bebiam de um rochedo espiritual que os acompanhava
– e esse rochedo era Cristo -.
5 No entanto, a maior parte deles desagradou a Deus,
pois morreram e ficaram no deserto.
6 Esses fatos aconteceram para serem exemplos para nós,
a fim de que não desejemos coisas más,
como fizeram aqueles no deserto.
10 Não murmureis, como alguns deles murmuraram,
e, por isso, foram mortos pelo anjo exterminador.
12 Portanto, quem julga estar de pé
tome cuidado para não cair.
Palavra do Senhor.

Se vós não vos converterdes, ireis morrer todos do mesmo modo.” Como a figueira que recebe tempo para frutificar, Deus nos concede Sua graça para renascer. Convertamo-nos hoje, pois Seu amor paciente espera, mas a eternidade depende da resposta do nosso coração.

1 Naquele tempo, vieram algumas pessoas
trazendo notícias a Jesus
a respeito dos galileus que Pilatos tinha matado,
misturando seu sangue com o dos sacrifícios que ofereciam.
2 Jesus lhes respondeu:
“Vós pensais que esses galileus eram mais pecadores
do que todos os outros galileus,
por terem sofrido tal coisa?
3 Eu vos digo que não.
Mas se vós não vos converterdes,
ireis morrer todos do mesmo modo.
4 E aqueles dezoito que morreram,
quando a torre de Siloé caiu sobre eles?
Pensais que eram mais culpados
do que todos os outros moradores de Jerusalém?
5 Eu vos digo que não.
Mas, se não vos converterdes,
ireis morrer todos do mesmo modo”.
6 E Jesus contou esta parábola:
“Certo homem tinha uma figueira
plantada na sua vinha.
Foi até ela procurar figos e não encontrou.
7 Então disse ao vinhateiro:
‘Já faz três anos que venho procurando figos 
nesta figueira e nada encontro.
Corta-a! Por que está ela inutilizando a terra?’
8 Ele, porém, respondeu:
‘Senhor, deixa a figueira ainda este ano.
Vou cavar em volta dela e colocar adubo.
9 Pode ser que venha a dar fruto.
Se não der, então tu a cortarás'”.
Palavra da Salvação.

Homilia

DEUS QUE LIBERTA – ÍDOLOS QUE DESAPONTAM

As leituras deste III Domingo da Quaresma, extraídas do Livro do Êxodo, da Primeira Carta aos Coríntios e do Evangelho de Lucas, trazem uma mensagem que nos liberta e desafia: elas nos chamam a refletir sobre a infinita misericórdia de Deus e a urgência de uma verdadeira conversão em nossa vida.

  • O Deus que , escuta e liberta
  • “Eu sou Aquele que sou!” Diante d’Ele, os ídolos são apenas nada e vazio.
  • “Se não vos converterdes, perecereis todos do mesmo modo!”

O DEUS QUE VÊ, ESCUTA E LIBERTA

Moisés, em sua jornada pelo deserto, não caminhava apenas por terras áridas, mas por um caminho de encontro com Em meio à sua rotina, Deus se manifesta de maneira extraordinária: uma sarça ardente que não se consumia, um fogo que não destrói, mas revela a presença viva do Eterno.o mistério divino. Ali, no silêncio e na solidão, Deus já o esperava.

O Deus que se revelou a Moisés não era distante, indiferente ou inatingível. Pelo contrário, Ele é um Deus que vê, escuta e age em favor de Seu povo:

Eu vi a aflição do meu povo que está no Egito, ouvi seu clamor por causa dos seus opressores e conheço seus sofrimentos (Êx 3,7).

Estas palavras não são apenas um relato do passado, mas um eco que ressoa na história da humanidade. Deus continua a olhar para a dor de Seus filhos. Ele não é um espectador passivo, mas UM PAI QUE SE COMOVE, que se aproxima e intervém para libertar. Sua compaixão não é teórica, mas ativa: Ele levanta libertadores, abre caminhos no impossível e chama cada um de nós para participar dessa missão.

Diante dessa manifestação, Moisés faz uma pergunta essencial: “Quem és Tu?”. E Deus responde com um nome que não se limita a uma definição fixa, mas que aponta para um mistério sempre em movimento:

Eu sou Aquele que sou (Êx 3,14), ou, em uma tradução que carrega ainda mais o dinamismo divino: EU SOU AQUELE QUE SEREI.

Deus não é um conceito, uma ideia ou um simples nome. Ele é ação, é presença viva e atuante. Seu ser não pode ser aprisionado em um termo humano, pois Ele é liberdade, amor e promessa cumprida.

Mais do que conhecê-Lo pelo nome, conhecemos Deus pela Sua obra. Ele se revela não pelo discurso, MAS PELA LIBERTAÇÃO, conduzindo Seu povo da escravidão para a terra prometida, da opressão para a esperança. Seu Nome está escrito na história de cada pessoa que Ele resgata, guia e transforma.

Hoje, essa revelação continua a nos interpelar. Quantas vezes nos sentimos como Israel no Egito, esmagados pelo peso da vida, clamando por socorro? O MESMO DEUS QUE OUVIU O CLAMOR DO SEU POVO ESCUTA O NOSSO GRITO. Ele vê nossas dores, sente nossas angústias e nos convida a confiar n’Ele, pois Seu amor continua ardendo, sem nunca se apagar.

E como Moisés, também somos chamados a responder. O fogo da sarça arde diante de nós, pedindo nossa escuta, nossa entrega e nossa coragem de seguir o caminho da fé. O Deus que é Aquele que será não apenas nos revela Seu Nome, mas nos convida a caminhar com Ele, confiantes de que SEU AMOR NOS CONDUZIRÁ À LIBERDADE.

EU SOU AQUELE QUE SOU!” DIANTE D’ELE, OS ÍDOLOS SÃO APENAS NADA E VAZIO.

São Paulo, com a sabedoria que atravessa os séculos, atualiza aquele texto antigo e o dirige à comunidade cristã de Corinto — e, por meio dela, a nós, hoje:

Essas coisas aconteceram com eles para servir de exemplo e foram escritas para advertência nossa (1Cor 10,11).

A advertência do Apóstolo ecoa em nossos dias, pois também nós corremos o risco de cair na idolatria, na imoralidade e na ingratidão diante de Deus.

Quantos, nos tempos de Paulo e nos nossos, fazem de suas paixões e desejos os verdadeiros senhores de suas vidas? Para alguns, o domingo não é mais o Dia do Senhor, mas o dia do futebol — um ídolo que ocupa o espaço que deveria ser de Deus. Vão ao estádio, ao entretenimento, mas se excluem do encontro com o Deus verdadeiro.

Outros fazem do prazer o seu deus, colocando o desejo acima do amor autêntico. Preferem a escravidão de um Egito moderno, onde o corpo e os impulsos dominam, à liberdade que Deus oferece. Esquecem que o amor de Deus não aprisiona, MAS LIBERTA, que Sua vontade não oprime, MAS DÁ SENTIDO E PLENITUDE À EXISTÊNCIA.

A idolatria, na essência, é essa inversão: trocar Deus por algo menor, passageiro e vazio. Mas Deus não é apenas um nome distante ou um conceito abstrato — ELE SE REVELA EM SUA OBRA LIBERTADORA. A história da salvação é o testemunho vivo de que Ele age para nos resgatar, para nos conduzir da escravidão à verdadeira vida.

Hoje, essa advertência nos convida a olhar para dentro de nós mesmos. Quem ou o que tem ocupado o lugar de Deus em nossas vidas? A quem estamos servindo? Se quisermos ser verdadeiramente livres, devemos voltar-nos para o Senhor e reconhecer que somente Ele é digno de adoração, somente Ele pode saciar nossa sede mais profunda.

SE NÃO VOS CONVERTERDES, PERECEREIS TODOS DO MESMO MODO!

A resposta de Jesus às tragédias que assolaram seu tempo não é um comentário superficial ou uma explicação simplista do sofrimento humano. Em vez disso, Ele nos confronta com uma verdade inegociável e urgente:

Se não vos converterdes, perecereis todos do mesmo modo (Lc 13,5).

Jesus não está apenas falando da morte física, mas de uma ruína espiritual que nos aguarda se não dermos ouvidos à voz de Deus. Seu chamado ao arrependimento não se reduz a um retorno mecânico aos rituais religiosos ou a uma obediência exterior desprovida de transformação interior. Não se trata apenas de mudar hábitos, mas de mudar o coração.

A conversão autêntica exige mais do que gestos visíveis; requer uma ruptura profunda com tudo o que nos afasta de Deus. Implica um realinhamento da nossa existência ao Seu desígnio, uma disposição para deixar para trás aquilo que escraviza e abraçar aquilo que liberta.

E quantos ídolos ainda disputam o senhorio sobre nossas vidas! Alguns de nós buscam segurança no dinheiro, no status, no poder, confiando mais nas riquezas passageiras do que no amor eterno de Deus. Outros vivem para o prazer imediato, ignorando o chamado à santidade. Há ainda os que, cegos pelo orgulho, se recusam a perdoar, endurecendo o coração e impedindo a graça de agir.

Jesus nos alerta: NÃO HÁ MEIO-TERMO, NÃO HÁ CAMINHO NEUTRO. O discipulado não é uma adesão superficial ao Evangelho, mas uma decisão radical e diária de se deixar transformar por Deus.

E Deus? Ele não é um conceito distante, nem uma ideia abstrata. Ele não é um nome vazio, mas um Deus que age, um Deus que liberta!

O Senhor viu o sofrimento de Seu povo no Egito e desceu para libertá-lo (cf. Ex 3,7-8). Ele enviou Seu Filho ao mundo para resgatar o que estava perdido (cf. Lc 19,10). Ele continua a operar maravilhas na vida daqueles que se abrem à Sua graça.

Então, o que nos impede de voltar para Ele? POR QUE HESITAMOS? O tempo da conversão não é amanhã, É AGORA. Cada instante que adiamos esse retorno, nos afastamos um pouco mais d’Aquele que é a própria Vida.

Esta Quaresma é um chamado à decisão. O Senhor nos dá mais um tempo, mais uma oportunidade, mais um convite ao arrependimento. Mas até quando? O Evangelho de hoje nos ensina que O TEMPO NÃO É INFINITO, e a nossa resposta não pode ser adiada indefinidamente.

Deixemo-nos tocar pela voz de Cristo, e, como o filho pródigo, ergamo-nos e voltemos para o Pai (cf. Lc 15,18), pois Ele NOS ESPERA DE BRAÇOS ABERTOS.

CONCLUSÃO

Estamos atentos ao chamado de Deus, como Moisés? Será que ouvimos Sua voz ressoando no mais profundo do nosso ser, convidando-nos a um novo caminho? Estamos dispostos a nos arrepender de tudo aquilo que nos afasta do Seu projeto de libertação?

Assim como Moisés, que diante da sarça ardente ouviu a voz divina e foi transformado por ela (cf. Ex 3,1-12), também nós somos chamados a um encontro radical com Deus. Mas será que estamos realmente escutando? Ou estamos tão distraídos com as vozes do mundo que ignoramos o chamado à conversão?

O tempo da Quaresma é um convite à escuta atenta, ao exame sincero do coração e ao compromisso de deixar para trás tudo o que nos impede de viver plenamente a liberdade que Deus nos oferece. Eis o momento favorável, eis o dia da salvação! (cf. 2Cor 6,2).

Que possamos, com humildade, responder como Moisés: AQUI ESTOU (Ex 3,4), dispostos a seguir o caminho da verdadeira libertação.

ORAÇÃO PARA O TEMPO DA QUARESMA

Senhor, guia-nos no deserto da Quaresma, dá-nos coragem para enfrentar nossas fraquezas e confiar em Tuas promessas.
Espírito Santo, conduze-nos à humildade e conversão, afastando-nos das tentações.
Jesus, ensina-nos a força da entrega e da confiança no Pai.
Ajuda-nos a carregar nossa cruz com esperança, transformando nosso coração em testemunho do Teu amor.
Amém.

Que esta oração nos acompanhe ao longo da Quaresma, iluminando nossos passos e fortalecendo nossa fé.

Texto: JOSÉ CRISTO REY GARCÍA PAREDES
Fonte: ECOLOGÍA DEL ESPÍRITU
Este artigo foi produzido com a assistência de ferramentas de inteligência artificial.